A indústria do charlatanismo

25/07/2011 21:11

 

Por Homero de Oliveira Costa*  

“O charlatanismo começou no dia em que o primeiro patife viu-se frente ao primeiro imbecil” (Voltaire)

Se existe uma indústria altamente rentável no Brasil – além, claro, da indústria da seca no Nordeste, – essa é seguramente a do charlatanismo. E é muito ampla: atingem os campos da saúde, religião (como os “pastores” eletrônicos prometendo milagres etc), política, literatura  e até mesmo entidades que são criadas e que são pura vigarice. Como o espaço é pequeno para tão vasta temática, nos restringiremos a algumas áreas.  Vamos a alguns (poucos) exemplos.

Há algum tempo, apareceu no programa Jô Soares um sueco chamado Donald Torry que afirmou ter criado uma fórmula a base de ervas, prometendo rejuvenescimento e magrecimento (essa, como veremos, é uma área muito propícia a todo tipo de picaretagens). No caso dessas “ervas miraculosas”, a sua comercialização foi proibida em São Paulo pelo Centro de Vigilância Sanitária, fundamentada na falta de registro do produto no Ministério da Saúde e principalmente na falta de laudos analíticos que comprovassem a eficácia das pílulas.

A respeito do caso, o Dr. Alfredo Haperns, professor livre docente da Faculdade de Medicina de São Paulo, assim se pronunciou: “Vejo-me na obrigação de salientar que o método (...) é um verdadeiro embuste, fato reconhecido por todos os médicos sérios desse país  e que esse é mais um dos métodos inventados e disseminados por indivíduos inescrupulosos no intuito de se aproveitarem comercialmente da avidez por milagres que assola o público desejosos de emagrecer e/ou rejuvenescer”.

O médico ainda desafia a mostrarem um artigo sério publicado em uma revista séria de medicina, comprovando a eficácia da prometida “limpeza do lixo orgânico” e no emagrecimento e rejuvenescimento.

As dietas da magreza, como sabemos,  é um “prato cheio” para todo tipo de picaretagem., com conseqüências graves, especialmente para as mulheres. Só nos Estados Unidos, a anorexia vitima cerca de 150 mil por ano. Como mostra Noami Wolf no seu belo livro “O Mito da beleza”   as imagens de beleza são usadas contra as mulheres “A seita da perda de peso recruta as mulheres desde cedo e os distúrbios da nutrição são seu legado”.

Há um excelente livro escrito por um médico, Dr. Kurt Klostzel, chamado “ABC do charlatão” (Edições Mandacaru, 1988) que trata do charlatanismo na área médica. Segundo o autor, no campo da saúde a trapaça tem livre trânsito. Entre os inúmeros exemplos citados, há de um estudo nos Estados Unidos, divulgado  pela Agência de Alimentação e Medicamentos que constatou que 75% dos medicamentos de venda livre no país se mostravam totalmente ineficazes (no Brasil será diferente?).

Para Dr. Klostzel como o público não tem em mãos as informações necessárias sobre os medicamentos “o salafrário conta com todo um ilimitado poder de induzir-lhe toda sorte de não doença”.

Vejam o caso de plantas que “curam” todas as espécies de males (do envelhecimento à calvicie; da impotência sexual à prisão de ventre)  e que não resistem minimamente à prova de fogo de uma investigação científica, algo aliás que muito dos chamados “alternativos”, muito rentável,  também ainda não passaram.

Em geral seus defensores usam uma linguagem rebuscada, pretensamente científica, falsamente cheia de autoridade. Li isso em cremes para a pele que não tem o menor efeito, em remédios para queda de cabelos e em produtos contra envelhecimento, que não são mais do que vigarice.

E o que dizer de entidades “pilantrópicas”? Causas nobres e atividades nem tanto: no ano passado, só para ficar neste exemplo, a policia paulista prendeu um bando de vigaristas que criaram uma entidade que tinha por objetivo ajudar crianças com câncer. As investigações da policia, revelaram que o serviço mais eficiente da entidade era o da cobrança aos que, de boa vontade colaboravam com ela... 

Para finalizar, que o assunto é vasto, certa vez duas repórteres do jornal o Globo, com ajuda de um despachante, para mostrar como é fácil criar uma entidade picareta no Brasil, fundaram uma no Rio de Janeiro com o sugestivo título de FARSA (Frente de Assistência e Reabilitação do Menor) com informações propositadamente falsas e mesmo assim foi aprovada ...

Quanto à charlatanice na política, bem, daria para escrever um livro, ficando apenas nos exemplos locais. Fica para outra ocasião. 

*Homero Costa é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN

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